{"id":798,"date":"2017-02-15T07:00:28","date_gmt":"2017-02-15T09:00:28","guid":{"rendered":"https:\/\/rafaelbuzon.com\/site\/?p=798"},"modified":"2024-09-06T17:06:51","modified_gmt":"2024-09-06T17:06:51","slug":"gestao-moderna-ideologias-ciencia-zen-e-tretas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rafaelbuzon.com\/site\/2017\/02\/15\/gestao-moderna-ideologias-ciencia-zen-e-tretas\/","title":{"rendered":"Gest\u00e3o moderna, ideologias, ci\u00eancia, zen e tretas"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 alguns termos [agora em 2017] ganhando maturidade na comunidade \u00e1gil: Complexidade (Muito do <a href=\"https:\/\/www.infoq.com\/br\/news\/2012\/11\/cynefin-gestao-de-mudancas\">framework cynefin<\/a>); Antifragilidade (Taleb); Teoria de Sistemas; Estruturas organizacionais modernas e ambientes auto-geridos; e foi sobre estes pontos entrevistei Alisson Vale e Rodrigo Yoshima. Confira!<\/p>\n<p><strong>1 &#8211; Muitos agilistas torcem o nariz quando se fala em &#8220;projetos&#8221;. Parece que este \u00e9 um exemplo daqueles termos estereotipados negativamente e &#8220;projeto&#8221; foi sendo substitu\u00eddo por &#8220;produto&#8221; em muitos vocabul\u00e1rios. Como voc\u00ea v\u00ea este ponto? O que tem de sadio e nocivo nisso?<\/strong><\/p>\n<p><em>Alisson Vale:<\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Aprendi recentemente que palavras s\u00e3o muito mais ferramentas do que r\u00f3tulos para coisas. Frequentemente carregam consigo cargas emocionais pelo seu mau uso. Temos uma ferramenta chamada &#8220;Project&#8221; que n\u00e3o \u00e9 bem vista por essa comunidade (de certa forma injustamente). Temos a fun\u00e7\u00e3o de &#8220;Gerente de Projeto&#8221; que \u00e9 igualmente &#8211; e tamb\u00e9m injustamente &#8211; criticada. Projetos s\u00e3o iniciativas tempor\u00e1rias com esfor\u00e7o e objetivos claros embutidos nelas. Temos isso o tempo todo em desenvolvimento de software. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Seja pra migrar o seu servidor de aplica\u00e7\u00e3o, seja para otimizar sua performance de execu\u00e7\u00e3o de testes automatizados, seja para entregar uma pr\u00f3xima release para o seu produto ou simplesmente para rodar sua pr\u00f3xima sprint. Projetos est\u00e3o inseridos no seu produto. H\u00e1 um erro em usar os dois conceitos de forma intercambi\u00e1vel. A grande quest\u00e3o \u00e9 como estruturar e conduzir seus projetos, pois, mesmo que voc\u00ea n\u00e3o use ou n\u00e3o goste do termo, eles est\u00e3o inevitavelmente presentes na sua realidade.<\/span><\/p>\n<p><em>Rodrigo Yoshima:<\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Como diz Dave Snowden: quem controla a narrativa controla a situa\u00e7\u00e3o. Em 2007 escrevi o artigo &#8220;<a href=\"http:\/\/blog.aspercom.com.br\/2007\/11\/15\/ganttchartnaofunciona\/\">Por que Gantt Charts n\u00e3o servem para projetos de software?<\/a>&#8220;<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">, um dos textos mais lidos no meu blog, ent\u00e3o, creio que sou um pouco respons\u00e1vel pela demoniza\u00e7\u00e3o do termo &#8220;projeto&#8221;. Atualmente entendo que diferentes empresas e equipes d\u00e3o nomes diferentes para algo muito importante para a gest\u00e3o eficaz: o TAMANHO DO LOTE DE TRABALHO. Na perspectiva Lean\/Kanban a preocupa\u00e7\u00e3o com tamanho de lotes come\u00e7ou com Taiichi Ohno na Toyota e o Don Reinertsen popularizou esse tema para o trabalho do conhecimento. Atualmente, me interesso pelo tamanho desses lotes e n\u00e3o seus &#8220;labels&#8221;. Entretanto, sempre desconfio quando algo ou algu\u00e9m tenta impor seu vocabul\u00e1rio &#8211; possivelmente ele est\u00e1 tentando controlar a narrativa.<\/span><\/p>\n<p>***<\/p>\n<p><strong>2 &#8211; Muito do que vemos dos conceitos &#8220;modernos&#8221; de gest\u00e3o dizem respeito \u00e0 maior valoriza\u00e7\u00e3o do ser humano; uma humaniza\u00e7\u00e3o das pr\u00e1ticas e a rela\u00e7\u00e3o de poder entre chefes e subordinados, l\u00edderes e liderados, gerentes e gerenciados. Por outro lado, h\u00e1 cr\u00edticas sobre o excesso desse foco e sobre se traz realmente resultados. Qual o limite da terapia com &#8220;pony management&#8221; e da real valoriza\u00e7\u00e3o da pessoa?<\/strong><\/p>\n<p><em>Alisson Vale:<\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A valoriza\u00e7\u00e3o do ser humano \u00e9 uma afirma\u00e7\u00e3o social e cultural contempor\u00e2nea. N\u00e3o acontece s\u00f3 na \u00e1rea de gest\u00e3o, nem s\u00f3 na \u00e1rea de software, mas nas rela\u00e7\u00f5es de trabalho como um todo. N\u00e3o h\u00e1 como se isolar dessa tend\u00eancia, pois as demandas sociais relacionadas a isso se traduzem inevitavelmente em demandas de mercado. Isso \u00e9 mais forte ainda na \u00e1rea de tecnologia, onde a rela\u00e7\u00e3o entre demanda e oferta de trabalhadores \u00e9 desbalanceada pelo impacto do talento nos resultados. Trabalhos relacionados mais com efic\u00e1cia do que com efici\u00eancia t\u00eam seus resultados muito mais atrelados \u00e0s decis\u00f5es que s\u00e3o tomadas pelas pessoas, do que pelo seu esfor\u00e7o. Adicione a isso, o fato de a criatividade ter grande capacidade para ampliar o impacto de tais decis\u00f5es. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Assim, talento passa a ser uma moeda mais forte. Como \u00e9 escasso, as empresas reagem a isso investindo no aspecto social e humano para atrair as pessoas certas. Entretanto, esse \u00e9 s\u00f3 um lado da moeda. H\u00e1 outros tra\u00e7os de personalidade que contribuem tamb\u00e9m para os resultados. Pessoas menos criativas, mas organizadas, com preocupa\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas e orientadas a resultados s\u00e3o igualmente importantes. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O mesmo se aplica aos m\u00e9todos e pr\u00e1ticas que usamos. Vivemos em uma constante batalha entre caos e ordem em nossos projetos. Precisamos viver na interface dos dois e esse \u00e9 o grande desafio da gest\u00e3o contempor\u00e2nea ao meu ver. Principalmente considerando que cada situa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o e que as f\u00f3rmulas que s\u00e3o criadas n\u00e3o sobrevivem \u00e0s suas particularidades.<\/span><\/p>\n<p><em>Rodrigo Yoshima:<\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O &#8220;<em>My Little Pony Management<\/em>&#8221; \u00e9 um termo que cunhei em 2014 e apresentei-o no\u00a0<em>Scrum Gathering Rio 2015<\/em>. Desde ent\u00e3o discuti o assunto com diversos especialistas em gest\u00e3o no Brasil e no Mundo e a aceita\u00e7\u00e3o desse &#8220;fen\u00f4meno&#8221; foi quase un\u00e2nime. Infelizmente o conhecimento que existe sobre esse assunto \u00e9 aned\u00f3tico e creio que lendas est\u00e3o se espalhando sobre o tema e minha rela\u00e7\u00e3o com ele. De forma simples o &#8220;My Little Pony Management&#8221; (ou simplesmente Pony Management) \u00e9 a exacerba\u00e7\u00e3o do humanismo, das &#8220;soft skills&#8221; e do l\u00fadico para muito al\u00e9m do que a evid\u00eancia cient\u00edfica nos ensina. Mexi num vespeiro quando decidi externalizar essas minhas impress\u00f5es. Eu n\u00e3o levei em conta o problema da indu\u00e7\u00e3o &#8211; se voc\u00ea diz que &#8220;humanismo&#8221; em excesso pode ser ruim, automaticamente as pessoas interpretam que voc\u00ea \u00e9 CONTRA o humanismo no ambiente de trabalho e te associam a pecha de tirano escravagista. Isso acontece o tempo todo em diversos assuntos, especialmente no posicionamento pol\u00edtico das pessoas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">As pessoas n\u00e3o discutem muito sobre isso, mas a vis\u00e3o &#8220;Agile&#8221; sobre o humanismo tem pontos cegos bastante danosos. O Agile prega que o sistema deve ser auto-organizado e praticamente sem autoridade centralizada &#8211; as pessoas tem nas m\u00e3os todas as alavancas para poderem hackear do jeito que quiserem o processo &#8211; tornando as interven\u00e7\u00f5es sist\u00eamicas de sua responsabilidade. O problema \u00e9 que quando as coisas n\u00e3o d\u00e3o certo a \u00fanica alavanca que est\u00e1 nas m\u00e3os de um gestor ou coach \u00e9 a motiva\u00e7\u00e3o das pessoas e as empresas tentam &#8220;mudar&#8221; isso. Resumindo, a organiza\u00e7\u00e3o usando Agile imp\u00f5e um empoderamento e caso d\u00ea problemas v\u00eaem isso como um problema de motiva\u00e7\u00e3o. Eu vejo problemas \u00e9ticos profundos nessa abordagem. Hoje estamos chegando a um ponto onde o sentimento das pessoas s\u00e3o discutidos em retrospectivas. Voc\u00ea \u00e9 obrigado a &#8220;ser feliz&#8221; (indu\u00e7\u00e3o de novo, se voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 feliz isso \u00e9 um problema). Voc\u00ea \u00e9 obrigado a dar e receber feedback. Voc\u00ea \u00e9 obrigado a ser colaborativo o tempo todo. Voc\u00ea tem que se encaixar num consenso do grupo. Se voc\u00ea n\u00e3o se encaixar nessa &#8220;forminha&#8221; Agile voc\u00ea ser\u00e1 expurgado da tribo. Coletivismo \u00e9 o pai da tirania. Creio que essa ideologia em nome do primeiro valor \u00e1gil \u00e9 abusiva. Eu gostaria de trabalhar com organiza\u00e7\u00f5es onde h\u00e1 livre associa\u00e7\u00e3o, diversidade de pensamento e n\u00e3o s\u00f3 de cor de cabelos, que d\u00ea espa\u00e7o ao contradit\u00f3rio, aos individualistas, aos depressivos, aos rabugentos, aos pessimistas e todos os outros refugiados do Pony Management.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A vis\u00e3o que defendo hoje s\u00e3o <a href=\"https:\/\/www.linkedin.com\/pulse\/human-side-kanban-rodrigo-yoshima\">as pr\u00e1ticas do Kanban<\/a>: o primeiro passo para o humanismo \u00e9 simplesmente tirar o ABUSO do ambiente de trabalho atrav\u00e9s de um sistema puxado com WIP limitado, deixe as pessoas se auto-organizarem ao redor do trabalho sem sobrecarga. Tirado o abuso eu simplesmente espero que as pessoas se comportem como adultos maduros. O Kanban resgata o papel do gestor que pode sim atuar no sistema com atos de lideran\u00e7a, assim como tamb\u00e9m entende que atos de lideran\u00e7a podem ser bottom-up. Tirar o abuso dos ambientes de trabalho \u00e9 algo mais palp\u00e1vel e felizmente isso realmente est\u00e1 acontecendo nas empresas que adotam Kanban.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">At\u00e9 o momento n\u00e3o vi evid\u00eancias definitivas que o Pony Management \u00e9 eficiente. Ele tem no m\u00e1ximo efeito terap\u00eautico, faz o gestor se &#8220;sentir bem&#8221;, mas n\u00e3o acredito que isso deva ser o objetivo de um sistema de gest\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p>***<\/p>\n<p><strong>3 &#8211; Existem realmente conceitos modernos ou o que temos s\u00e3o novas roupagens para antigas pr\u00e1ticas e formas de pensar?<\/strong><\/p>\n<p><em>Alisson Vale:<\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Sim, existem. E sempre haver\u00e1 novos. Como diz o Zygmunt Bauman em seu livro &#8220;Modernidade L\u00edquida&#8221;, vivemos em uma cauda da modernidade da qual n\u00e3o conseguimos escapar. Nada &#8220;\u00e9&#8221;. Tudo &#8220;deixa de ser&#8221;. A velocidade pela qual o mundo muda nos impede de estabilizar as coisas. Os modelos n\u00e3o sobrevivem pois eles &#8220;s\u00e3o&#8221;. Enquanto isso o mundo &#8220;deixa de ser&#8221;. Novas formas de enxergar e conceitualizar a realidade precisam ser constantemente criados porque o mundo muda a despeito deles. Esse descompasso afeta sua efic\u00e1cia como ferramentas \u00fateis para o mapeamento da realidade. Os modelos estar\u00e3o sempre correndo atr\u00e1s do mundo. A exaust\u00e3o \u00e9 inevit\u00e1vel.<\/span><\/p>\n<p><em>Rodrigo Yoshima:<\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Acredito que exista sim grande converg\u00eancia nas formas de pensar entre o antigo e o novo. Tudo est\u00e1 em constante evolu\u00e7\u00e3o. Na minha linha de estudo e aplica\u00e7\u00e3o atual o Antifragile, Concavidade \/ Convexidade e a l\u00f3gica do Black Swan tem rela\u00e7\u00f5es \u00edntimas com a Complexidade e o <a href=\"https:\/\/www.infoq.com\/br\/news\/2012\/11\/cynefin-gestao-de-mudancas\">Cynefin<\/a>. Como o <a href=\"https:\/\/twitter.com\/az1\">Alexei Zheglov<\/a> afirmou no Twitter uns tempos atr\u00e1s a vanguarda do Kanban \u00e9 quando o <a href=\"https:\/\/twitter.com\/snowded\">Dave Snowden<\/a> vai de encontro com <a href=\"https:\/\/twitter.com\/nntaleb\">Nassim Nicholas Taleb<\/a>. Eu considero que Antifragile \u00e9 uma explica\u00e7\u00e3o melhor para a complexidade e a evolu\u00e7\u00e3o de sistemas.<\/span><\/p>\n<blockquote><p><a href=\"https:\/\/rafaelbuzon.com\/site\/2017\/02\/13\/como-nao-ser-o-peru-de-acao-de-gracas\/\">Mais sobre c\u00f4ncavo, convexo, robusto, fr\u00e1gil e antifr\u00e1gil, voc\u00ea pode conhecer na entrevista com o Celso Martins: &#8220;Como n\u00e3o ser o Peru de A\u00e7\u00e3o de Gra\u00e7as&#8221;.<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Vivemos um tempo muito bom para a propaga\u00e7\u00e3o de ideias, Deus aben\u00e7oe a Internet. Creio que n\u00e3o podemos confundir a novidade com o modismo. Estar na vanguarda n\u00e3o \u00e9 voc\u00ea precipitadamente aceitar qualquer ideia, por mais sentido que ela fa\u00e7a para voc\u00ea. Tome muito cuidado com as narrativas que fluem por a\u00ed e quais voc\u00ea adota. Tome mais cuidado ainda com os espantalhos. Eu pessoalmente costumo adotar ideias no meu dia-a-dia ap\u00f3s ver evid\u00eancias cient\u00edficas ou fenomenologias consistentes documentadas. Costumo promulgar ideias para os outros depois de ter comprovado seus resultados nos meus &#8220;laborat\u00f3rios&#8221;.<\/span><\/p>\n<p>***<\/p>\n<p><strong>4 &#8211; Essa \u00e9 filos\u00f3fica: Tudo \u00e9 relativo ou existem conceitos dos quais n\u00e3o podemos abrir m\u00e3o para uma boa gest\u00e3o? <\/strong><\/p>\n<p><em>Alisson Vale:<\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o vejo relativismo nas discuss\u00f5es recentes. Princ\u00edpios s\u00f3lidos se mant\u00e9m, mas, por causa do que respondi na quest\u00e3o anterior, precisam ser inseridos no contexto de princ\u00edpios com um discurso cada vez mais estruturado para o mundo em que vivemos. Um exemplo est\u00e1 no pr\u00f3prio Manifesto \u00c1gil quando diz que &#8220;Working software is the primary measure of progress&#8221;. Fazia muito sentido quando a pr\u00e1tica comum era medir o progresso com um &#8220;check&#8221; nas atividades de um projeto. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Hoje a realidade \u00e9 outra. Descobrimos que entregar software n\u00e3o quer dizer nada, se valor n\u00e3o estiver sendo gerado. Isso torna esse princ\u00edpio do Manifesto errado ou, no m\u00ednimo, impreciso? Talvez. Mas n\u00e3o o invalida. Assim como f\u00edsica de Einstein n\u00e3o invalida a de Newton, apesar de torn\u00e1-la &#8220;menos precisa&#8221;. A grande quest\u00e3o \u00e9 que quando voc\u00ea instancia os princ\u00edpios para a\u00e7\u00f5es concretas, o encaixe do mundo com os princ\u00edpios ser\u00e1 \u00fanico. Ser\u00e1 preciso fazer design. Design de solu\u00e7\u00f5es \u00fanicas para problemas \u00fanicos n\u00e3o \u00e9 relativismo, pois \u00e9 validado pela efetividade do resultado em suas m\u00faltiplas dimens\u00f5es. O relativismo n\u00e3o sobrevive a essa por\u00e7\u00e3o de pragmatismo que est\u00e1 sendo inserida na discuss\u00e3o. \u00a0\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><em>Rodrigo Yoshima:<\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Relativismo \u00e9 o esconderijo preferido dos canalhas e, ao contr\u00e1rio da opini\u00e3o do Alisson, eu vejo muito relativismo, mesmo que n\u00e3o declarado, especialmente na comunidade \u00e1gil. O mais comum s\u00e3o especialistas dizerem coisas como &#8220;no sistema complexo h\u00e1 uma imprevisibilidade inerente, as rela\u00e7\u00f5es entre causa e efeito n\u00e3o s\u00e3o claras&#8221; &#8211; e eu concordo com essa declara\u00e7\u00e3o &#8211; por\u00e9m, eles usam a complexidade (ou o Cynefin, muito superficialmente) como desculpa. Precipitadamente colocam no dom\u00ednio complexo aquilo onde querem ser relativistas (como estimativas, inova\u00e7\u00e3o, auto-organiza\u00e7\u00e3o) e jogam no \u00f3bvio tamb\u00e9m precipitadamente aquilo que os interessa (hierarquia \u00e9 ruim, o m\u00e9todo X \u00e9 o correto, testes automatizados s\u00e3o obrigat\u00f3rios).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Estou escrevendo uma s\u00e9rie de artigos tentando elucidar isso (<a href=\"http:\/\/blog.aspercom.com.br\/2016\/07\/08\/complexidade-agile-historia-peculiar\/\">link<\/a>)<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">. Muitas pessoas n\u00e3o est\u00e3o em busca da verdade ou de solu\u00e7\u00f5es, s\u00f3 est\u00e3o querendo usar teorias para encaixar suas narrativas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Sobre algo que n\u00e3o podemos abrir m\u00e3o em gest\u00e3o, bem, gest\u00e3o \u00e9 um assunto bem amplo, mas eu apostaria nas ideias que s\u00e3o mais antigas e prevaleceram aos testes do tempo. A evolu\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica ou social tem mais de um bilh\u00e3o de anos. Lideran\u00e7a (n\u00e3o necessariamente hierarquia), comportamento tribal e o com\u00e9rcio (trocas livres, rela\u00e7\u00f5es &#8220;ganha-ganha&#8221;, algo tamb\u00e9m conhecido como entrega de valor) tem mais de 10.000 anos. Entender um sistema de trabalho como um fluxo tem mais de 100 anos. Entender o fluxo como um sistema tem mais de 50 anos. Alguns podem dizer que cometo a fal\u00e1cia de apelo \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o, mas na verdade s\u00f3 estou usando o <strong><a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Lindy_effect\">Lindy Effect<\/a><\/strong>, e isso tem sido eficiente. Mitos de gest\u00e3o n\u00e3o passam ao teste do tempo.<\/span><\/p>\n<p>***<\/p>\n<p><strong>5 &#8211; O que voc\u00ea tem visto de mais contradit\u00f3rio ou ineficaz na comunidade \u00e1gil atual em termos de aplica\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><em>Alisson Vale:<\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O foco em features, queima de escopo e forma\u00e7\u00e3o de backlogs, al\u00e9m das tentativas de criar mapas de previsibilidade baseado na rela\u00e7\u00e3o &#8220;escopo x na data y&#8221;. A comunidade \u00c1gil ainda faz isso e ainda promove m\u00e9todos e pr\u00e1ticas que suportam isso, o que \u00e9 v\u00e1lido quando os aspectos culturais da empresa que voc\u00ea trabalha requerem isso. Mas isso \u00e9 remanescente da nossa dificuldade de entender a natureza do nosso trabalho e da nossa incapacidade de estabelecer um relacionamento adequado com nossos clientes. Ainda temos medo dos clientes; e temos medo de nossas pr\u00f3prias incertezas. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A frase &#8220;O cliente n\u00e3o sabe o que quer&#8221; \u00e9 uma frase que n\u00e3o conta a verdade toda. Ele sabe muito bem o que quer. Somos n\u00f3s que fazemos as perguntas erradas. Perguntas como &#8220;o que voc\u00ea quer que o software fa\u00e7a&#8221; ou &#8220;qual a pr\u00f3xima feature do backlog&#8221; s\u00e3o perguntas de quem trabalha com t\u00e9cnicas, pr\u00e1ticas e tecnologias do s\u00e9culo XXI, mas com uma mentalidade presa ao s\u00e9culo XX. Isso n\u00e3o \u00e9 um problema da comunidade \u00c1gil somente, mas da ci\u00eancia do desenvolvimento de software. Termos como &#8220;An\u00e1lise de Sistemas&#8221; ou &#8220;Analista de Sistemas&#8221; n\u00e3o s\u00e3o mais apropriados nos dias de hoje e espero que sejam extintos nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas. <\/span><\/p>\n<p><em>Rodrigo Yoshima:<\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Como citado na minha resposta anterior, seria o entendimento sobre Complexidade.\u00a0Algo que tamb\u00e9m pode ser explicado pelo &#8220;Cargo Cult&#8221;. Eu gostaria que a comunidade tivesse mais rigor e aceitasse menos &#8220;groselhas prontas&#8221; sem escrut\u00ednio. Hoje qualquer um escreve um blog post apresentando a ideia X ou pr\u00e1tica Y que foi aplicada uma \u00fanica vez e o resultado final \u00e9 &#8220;foi bem legal fazer essa atividade&#8221;. Eu demando maior rigor. Eu quero ouvir as narrativas: qual \u00e9 o problema que voc\u00ea est\u00e1 tentando resolver? Qual o contexto? Que evid\u00eancias voc\u00ea tem que isso \u00e9 um problema? Como foi aplicar a pr\u00e1tica? Qual foi o resultado? Quantas vezes isso foi repetido? Eu acredito que s\u00f3 assim ter\u00edamos avan\u00e7o. O fato de eu exigir esse rigor me rendeu o t\u00edtulo de &#8220;tretista&#8221; na comunidade, mas as respostas aos meus questionamentos est\u00e3o bem longe do satisfat\u00f3rio. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Entretanto, o que mais me afastou do Agile \u00e9 o fato dele ser uma abordagem ideol\u00f3gica. Existe o &#8220;nirvana&#8221; \u00e1gil. Isso simplesmente cega as pessoas \u00e0 realidade e fazem elas serem guiadas pelo &#8220;wishful thinking&#8221;. Quest\u00f5es do tipo &#8220;isso n\u00e3o \u00e9 \u00e1gil&#8221;, &#8220;quem n\u00e3o faz testes automatizados n\u00e3o \u00e9 profissional&#8221;, &#8220;n\u00e3o fa\u00e7a \u00e1gil, seja \u00e1gil&#8221;, &#8220;vamos acabar com os gerentes&#8221; n\u00e3o me ajudavam nos meus clientes, e eu encontrei pouco espa\u00e7o para o contradit\u00f3rio na comunidade. Assim, hoje atuo mais como profeta do que como pastor na comunidade. Profeta n\u00e3o no sentido de mostrar o futuro (toda met\u00e1fora tem limita\u00e7\u00f5es), mas sim, mostrar inconsist\u00eancias.<\/span><\/p>\n<p>***<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\"><strong>6 &#8211; \u00a0Um dos pontos do webinar que est\u00e3o promovendo diz sobre como sobreviver \u00e0 complexidade. O quanto \u00e9 poss\u00edvel atribuir sucesso \u00e0 capacidade de gest\u00e3o do indiv\u00edduo ou equipe e o quanto seria pura sorte, na complexidade?<\/strong> <\/span><\/p>\n<p><em>Alisson Vale:<\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Considero &#8220;sorte&#8221; uma ocorr\u00eancia, a seu favor, de um evento de baix\u00edssima probabilidade. Dessa maneira, acho que a quest\u00e3o passa a ser outra: voc\u00ea confiaria o seu projeto \u00e0 sorte? Provavelmente n\u00e3o. Complexidade n\u00e3o \u00e9 aleatoriedade. H\u00e1 padr\u00f5es de comportamento que permitem sua integra\u00e7\u00e3o harmoniosa com ela. Sim, \u00e9 preciso saber lidar com esses padr\u00f5es para sobreviver a complexidade. Assim, s\u00f3 nos resta investir na coisa mais importante que precisamos investir: &#8220;Fazer a coisa certa&#8221;. O que \u00e9 algo n\u00e3o-intuitivo de se fazer porque voc\u00ea nunca sabe, a priori, qual \u00e9 a coisa certa a se fazer. Participar do processo de descoberta da coisa certa \u00e9 a ess\u00eancia da gest\u00e3o do s\u00e9culo XXI, tanto no n\u00edvel de empresa e equipe, quanto no n\u00edvel de cada indiv\u00edduo. <\/span><\/p>\n<p><em>Rodrigo Yoshima:<\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Todas as vezes que converso com algu\u00e9m que se tornou milion\u00e1rio pelo seu pr\u00f3prio trabalho eu pergunto: &#8211; Foi sorte? A maioria deles diz que sim! Eles contam aquela velha hist\u00f3ria de estar no lugar certo e na hora certa&#8230; Hoje a inova\u00e7\u00e3o e o empreendedorismo vivem um momento engra\u00e7ado, praticamente s\u00e3o gurus<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0falando: &#8220;Ganhei na Mega Sena e neste v\u00eddeo vou mostrar os n\u00fameros que joguei para voc\u00ea ganhar tamb\u00e9m&#8221;. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Eu acredito que o fator sorte est\u00e1 presente, tamb\u00e9m acredito que \u00e9 poss\u00edvel aumentar suas chances. Se voc\u00ea tem uma estrat\u00e9gia c\u00f4ncava, sua exposi\u00e7\u00e3o ao Black Swan \u00e9 nula. Se sua estrat\u00e9gia \u00e9 convexa voc\u00ea tem chances de acertar. No poker dizemos que \u00e9 um problema grave quando o medo de perder \u00e9 maior que sua vontade de ganhar. Todos aqueles empreendedores milion\u00e1rios que conversei compraram riscos financeiros ou pessoais. \u00c9 sobre esses assuntos que pretendo falar no <a href=\"http:\/\/softwarezen.me\/partners\/aspercom\/webinario\/\">Webin\u00e1rio <\/a>deste dia 15\/02\/2017.<\/span><\/p>\n<p>***<\/p>\n<p><em>Agrade\u00e7o enormemente ao Alisson e ao Yoshima pelas respostas e indico a todos o webinar do pr\u00f3ximo dia 15\/02\/2017, quarta-feira. Inscri\u00e7\u00f5es aqui:\u00a0<a class=\"gmail_msg\" href=\"http:\/\/softwarezen.me\/partners\/aspercom\/webinario\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=http:\/\/softwarezen.me\/partners\/aspercom\/webinario\/&amp;source=gmail&amp;ust=1487091848720000&amp;usg=AFQjCNEN0eaHanB6v9tYvqpE4A3z2CBudw\">http:\/\/softwarezen.me\/<wbr \/>partners\/aspercom\/webinario\/<\/a>!<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p>Alisson Vale \u00e9 desenvolvedor de produtos de software, educador e empreendedor. Com mais de 20 anos de experi\u00eancia em desenvolvimento e lideran\u00e7a de projetos de software, tem sido um praticante e divulgador de m\u00e9todos modernos de gest\u00e3o desde 2003 com uma grande participa\u00e7\u00e3o em congressos e f\u00f3runs de debate no Brasil e no exterior. Em 2008, implementou o primeiro estudo de caso do m\u00e9todo Kanban no Brasil e, logo depois, ganhou o pr\u00eamio internacional Brickel Key Award por essa implementa\u00e7\u00e3o. Em 2014, fundou o Software Zen, um empreendimento de educa\u00e7\u00e3o digital que tem levado conte\u00fado inovador sobre gest\u00e3o a milhares de pessoas.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Rodrigo Yoshima \u00e9 o maior especialista em Kanban do Brasil, AAKT (Advanced Accredited Kanban Trainer) e KCP (Kanban Coaching Professional) pela Lean-Kanban University. \u00c9 CEO da Aspercom atuando em empresas no Brasil, Estados Unidos e Europa e tamb\u00e9m Associate Consultant da Lean-Kanban Inc<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 alguns termos [agora em 2017] ganhando maturidade na comunidade \u00e1gil: Complexidade (Muito do framework cynefin); Antifragilidade (Taleb); Teoria de Sistemas; Estruturas organizacionais modernas e ambientes auto-geridos; e foi sobre estes pontos entrevistei Alisson Vale e Rodrigo Yoshima. 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